Meia-noite na Lapa

                                        Saiu do filme de Woody Allen, pegou um táxi e encontrou Noel Rosa

Ilustração de O Globo
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Eu saí impressionado do filme do Woody Allen sobre os mistérios deflagrados pelo relógio da meia-noite em Paris. Peguei um táxi e, sem que eu dissesse nada ao motorista que fumava um cigarro Veado, acabei na mesa de Noel Rosa, no Danúbio Azul, na Lapa. Fui sincero. “Você não acha”, desabafei brincalhão, “que é uma injustiça o Xexéo ter dito que eu só escrevo nostalgias?”.
Noel fez o discreto e pediu para ser colocado fora dessa. Já estava em meio a uma pendenga com um tal de Wilson Batista — e me apontou com o queixo o gajo na mesa dos fundos, um sujeito que chegava justo naquele momento, arrastando o tamanco, chapéu de lado, navalha à vista. Pediu que eu mantivesse o malandro à distância com o canto do olho.
Expliquei ao grande sambista o filme do Woody Allen, o meu desejo de ter vivido ali na Lapa da década de 30, em meio aos compositores dos anos de ouro da MPB (“ahn?”, ele estranhou quando ouviu a sigla). Noel comentou alguma coisa sobre o cinema falado, que garantiu ser o grande culpado de outras confusões. Não conhecia o Xexéo. Dos cronistas, o seu preferido continuava sendo o saudoso João do Rio, que Deus o tivesse em seu cadilaque e suas roupas de dândi.
Noel bebia um vermute em companhia de uma dama de cabaré. Estava de terno branco. Disse que, de lutas, não entendia abacate e que seu alfaiate não fazia roupa para brigar. Eu ri. Chico Alves, que estava comprando um samba do Ismael Silva na mesa ao lado, também caiu na gargalhada, num dó maior afinado.
Era meia-noite na Lapa dos anos 30, aquela que Luis Martins iria chamar de “a Montmartre carioca”, e eu achei que o táxi tinha me trazido ao lugar certo. Noel sentiu pela reação da plateia que a rima do abacate com alfaiate era boa e pediu: seu garçom, faça o favor. Que lhe trouxesse um lápis. Anotou a frase nas costas de um maço de Liberty Ovais. Eu quis ser engraçado e disse que em matéria de luta também estava mais para Tarzan depois da gripe. Senti que ele gostou. Discretamente, anotou “Tarzan, o filho do alfaiate” no alto do papel.
Se por um canto do olho eu mantinha Noel a salvo de Wilson Batista, pelo outro vi que Portinari entrava em cena por uma das portas do Danúbio Azul. O pintor cumprimentou de passagem uma mesa onde estavam Jaime Ovalle, Orlando Silva e Villa-Lobos. Cantavam a marcha da “Baratinha”, de Orlando. Riam.
Noel Rosa desculpou-se, mas precisava ir. Recomendou baixinho que eu desse uma volta na Lapa, fosse conhecer a mulataria da Rua Morais e Vale, que julgava superior às polacas da Joaquim Silva. “É o que temos”, lamentou, desdenhando do meu apreço pelos anos 30, “isso aqui era bem melhor nos anos 20.”
Elegantemente fez com que eu me sentasse à mesa com Benjamim Costallat no momentoem que o cronista escrevia a frase “O bairro da cocaína estava naquele momento em plena efervescência”. Fiquei sem jeito de interromper e disse-lhe que já tinha lido aquela frase. Ele não pegou a brincadeira. Sorri por dentro. Pela porta do Danúbio, vi que na rua passava Di Cavalcanti abraçado com uma negra de dois metros. Parecia a Marina Montini, mas ainda não era.
Eu vi Mário de Andrade no Siri com um marinheiro que marcava o ritmo de um foxtrote batendo com o cinto na cadeira; eu ouvi Sinhô telefonando no Café Bahia; eu perguntei o preço a Chouchou na porta do Royal Pigalle. Quando passei por Mário Lago ele conversava com Dorival Caymmi. Ouvi que o primeiro contava diatribes acontecidas com uma tal de Amélia enquanto o outro, atordoado pelo barulho das prostitutas ao redor, perguntava de volta: “Anália?”.
Era a Lapa real, sem nostalgia, aquela a que o táxi na saída do filme do Woody Allen tinha me levado. Custódio Mesquita toca “Mulher” ao piano, na rua fechada em frente à Leiteria Bol. Na calçada do Cabaré Brasil Dourado, jaz assassinado por um concorrente o leão de chácara Meia-Noite, um sujeito que até ontem eliminava os desafetos aplicando golpes aprendidos nos westerns do cinema. Na roda de prostitutas e malandros aberta ao redor do corpo, Miguelzinho da Lapa, campeão sulamericano de capoeira, vela o corpo do amigo. De longe, tomando um gole de guaraná, Assis Valente assiste. Parece deprimido.
Deixei a tristeza de lado, passei pela porta da Gruta do Frade, do Viena Budapeste, do Tabu, do Brasil Dourado, do Primor, do Royal Pigalle, do Casanova e dos pastéis do Adão. Resolvi tomar um traçado no Novo México, na Mem de Sá, onde naquele momento Aracy de Almeida começava a cantar “Feitiço da Vila”. Estava tudo bem — Pixinguinha deu uma canja, Marques Rebelo tomava notas para um artigo —, quando um mulato de camisa listrada entrou correndo pela boate. Foi parar no palco, ao lado de Aracy, a quem pegou como refém para se proteger do pelotão de policiais que o perseguia.
Nesse momento, o táxi, que eu havia pedidopelo celular, buzinou na porta — e eu saí correndo, antes que subissem os créditos da magia cinematográfica de uma meia noite na Lapa.

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